Paula Ramos: Liderar com proximidade, crescer com curiosidade
Há carreiras marcadas pela ambição e outras marcadas pela evolução. A de Paula Ramos é marcada por ambas, mas sobretudo por uma constância rara: a de quem cresce com as pessoas e através das pessoas.
A sua vida profissional começou com um estágio numa agência que começava a dar os primeiros passos num mercado ainda muito embrionário e onde se trabalhava ainda com FAX. Ficou 20 anos. Cresceu de estagiária a diretora-geral. Aprendeu a comunicar enquanto a própria comunicação se reinventava, do fax ao email, do email aos chats, dos chats à IA. E fez esse percurso sempre guiada pelo mesmo princípio: as oportunidades contam, mas o que fazemos com elas conta ainda mais.
“É possível estar 20 anos numa empresa, é possível crescer 20 anos numa empresa, e é possível ser muito feliz 20 anos numa empresa.”
O momento de sair e a coragem de realizar sonhos antigos
Após duas décadas numa única casa, Paula soube escutar o momento certo para partir. E quando saiu, não foi para outra agência. Foi para um sonho antigo: criar um ATL. Tirou licenças, criou equipa, angariou clientes, montou tudo do zero. Seis anos dedicada a um projeto que queria desde menina. Prova de que liderar é também saber honrar aquilo que nos move.
Em paralelo, abraçou um segundo caminho: a consultoria de carreiras na Upper Side. Não por distância do mundo corporativo, mas por proximidade. Porque trabalhar com pessoas, escutá-las, acompanhá-las na mudança, sempre fez parte de si, e fez parte do seu percurso enquanto líder.
Depois, surgiram novos convites. Voltou ao universo das consultoras, passou por outra agência, e acabou por chegar à ATREVIA, onde hoje dirige áreas, forma equipas, desenvolve projetos e continua a criar coisas novas.
Uma liderança que se constrói com pessoas, não sobre elas
Quando fala de liderança, Paula não começa por métodos nem frameworks. Começa por pessoas.“Eu sou uma pessoa de pessoas. A liderança é de proximidade. E ninguém lidera sozinho.”
A sua visão é clara: liderar não é ocupar um lugar, é ter alguém que queira ser liderado por nós. E isso exige três habilidades que atravessam toda a sua entrevista:
Proximidade
Curiosidade
Escuta ativa
Ela não se coloca acima da equipa, coloca-se com a equipa. Pede ajuda quando não sabe. Pergunta. Aprende. Assume. Porque, como diz, “todos temos o nosso espaço, todos temos algo a acrescentar”.
E sabe também o que significa ceder: “Meti a viola no saco inúmeras vezes, e cresci muito com isso.”
Engagement: crescer com as equipas, não apesar delas
No setor da comunicação, onde tudo muda depressa: ferramentas, ritmos, expectativas Paula acredita que o alinhamento nasce de duas forças simples, mas exigentes: ouvir e manter o espírito aberto.
Não domina tudo, nem quer. Prefere aprender. Prefere perguntar. Prefere ser parte da equipa.
E recusa lideranças que confundem autoridade com distância: “Uma liderança é muitas vezes solitária. Eu não consigo ver a liderança como algo solitário.”
A crise como professora: verdade e calma
Paula trabalhou dezenas de crises. Nenhuma igual. Mas de todas leva duas lições que repetem com a força de quem já viu muito:
Verdade absoluta — para dentro e para fora
Calma — nunca reagir a quente
“Preparar uma crise é a principal arma. Não há duas iguais, mas a verdade é sempre a mesma.”
Transparência, franqueza, confiança: é aqui que assenta a sua filosofia
A comunicação como ferramenta de gestão, não como vaidade
Quando fala de comunicação corporativa, Paula é direta: a comunicação não é para “aparecer”, é para crescer.
“A comunicação tem de estar sentada na mesa certa. É um requisito de gestão. É para reforçar pontos fortes, minimizar fragilidades e desenvolver negócio.”
Sem propósito, sem alinhamento, sem visão clara, não é comunicação, é ruído.
Carreira, mudança e humanidade
Na Upper Side, enquanto consultora de carreiras, viu de perto o que move as pessoas. E viu também o que muda: as prioridades, as fases de vida, o que se procura em cada etapa. O que nos move aos 20 não é o que nos move aos 40.
E é essa consciência que leva consigo para cada equipa que lidera.
Liderança hoje: menos PowerPoint, mais prática
O Executive Master da Católica ajudou-a a reorganizar ideias num momento decisivo, quando ponderava deixar a empresa onde esteve 20 anos. Trouxe-lhe clareza. E trouxe-lhe também uma certeza:
“Falta aos líderes passar do PowerPoint à prática.”
Empatia, escuta, presença, tempo dedicado às equipas: é isso que diferencia um líder ocupado de um líder transformador.
O futuro: IA, novas gerações e a arte de ouvir
A tecnologia e a inteligência artificial já não são tendência, são realidade. Mas para Paula, o desafio não é técnico: é humano. É aprender a usar bem, a poupar tempo, a ganhar qualidade. E é também saber trabalhar com várias gerações, diferentes ritmos, diferentes preocupações.
O antídoto? Escuta ativa. Atualização constante. Interesse genuíno.
O conselho final: ouvir duas vezes mais do que se fala
A frase que deixa aos futuros líderes de comunicação é simples, quase óbvia, mas raramente praticada:
“Respeitem a anatomia humana: temos uma boca e dois ouvidos.”
Ouvir mais, falar melhor, aceitar o erro, procurar propósito comum. E olhar para as pessoas como um todo, não como funções.