Mário Campino: Criar Valor Fora da Zona de Conforto
Há carreiras que se constroem por acumulação e outras que se afirmam por decisão. A de Mário Campino pertence claramente à segunda categoria. Ao longo de mais de três décadas em finanças, consultoria, auditoria, risco e administração, em contextos nacionais e internacionais, o fio condutor manteve-se inalterado: criar valor através da utilização eficiente dos recursos disponíveis.
“Mesmo em posições confortáveis, mantive sempre a ambição de evoluir”, assume. Essa inquietação traduziu-se na coragem de aceitar novos desafios, muitas vezes acompanhados de tensão interior e risco calculado. Para Mário, o verdadeiro desenvolvimento profissional acontece fora da zona de conforto, é aí que as competências se testam e se consolidam.
O rigor da consultoria como escola de pensamento
Foram 15 anos na Accenture, onde liderou a área de Finance & Performance Management, que moldaram decisivamente a sua forma de pensar estratégia e performance. Estruturar problemas complexos, medir resultados e gerir mudança tornaram-se reflexos naturais.
Essa disciplina analítica permanece hoje como um pilar da sua liderança. A definição de estratégia, para Mário Campino, nunca se separa de métricas claras, critérios objetivos de criação de valor e um foco absoluto na execução. Rigor e inovação não são conceitos opostos, são complementares.
Governance e risco: maturidade com espaço para crescer
A passagem por funções de liderança em Auditoria, Risco e M&A, bem como a participação em vários órgãos de governance, deu-lhe uma visão clara sobre a evolução das organizações portuguesas nestes domínios. O progresso é evidente, mas persistem fragilidades, sobretudo na integração da gestão de risco na tomada de decisão estratégica.
“O governance não existe para eliminar o risco, mas para o tornar consciente”, defende. Não há negócio sem risco nem decisões imunes ao erro. O desafio está em criar um ecossistema onde cada área compreende o seu papel, evitando excessos ou omissões, e contribuindo para a sustentabilidade e integridade da organização.
Liderar na complexidade internacional
A experiência como CFO e Board Member da Mota-Engil LATAM, com responsabilidade sobre vários países da América Latina, acrescentou uma nova camada de complexidade à sua trajetória. Diversidade cultural, regimes fiscais distintos e volatilidade económica exigiram adaptabilidade e proximidade local.
Mais do que os business plans, foi a avaliação dos parceiros locais que se revelou crítica. O caso do Brasil, um mercado particularmente exigente, tornou-se uma referência de sucesso. A lição foi clara: liderança global exige humildade, escuta ativa e equilíbrio entre políticas corporativas e realidades regionais.
O CFO como arquiteto de valor
Mário Campino nunca se viu como um CFO tradicional. Para si, o papel evoluiu de “guardião do orçamento” para arquiteto de valor. Um parceiro estratégico que integra capital, risco e crescimento, antecipa cenários e suporta decisões críticas, do investimento ao M&A, passando pela transformação digital.
O impacto do CFO vai além dos números: influencia a cultura, a estratégia e a forma como a organização pensa o futuro.
Real Vida Seguros: crescer com solidez
Desde 2019 na Real Vida Seguros, primeiro como CFO e hoje como Vice-Presidente, Mário Campino tem sido parte ativa de um ciclo de transformação notável. A empresa vive um dos momentos mais sólidos da sua história, com rentabilidade dos capitais próprios acima de 20%, rácio de solvência superior a 225% e ativos sob gestão próximos dos 800 milhões de euros.
A evolução da quota de mercado — de 1% em 2017 para mais de 6% no segmento Vida — reflete uma estratégia clara: crescer com rentabilidade, apoiado num balanço sólido, mesmo que isso tenha implicado reduzir a sua dimensão numa fase inicial.
O seu contributo passou pela promoção do trabalho multidisciplinar e pela construção de uma cultura de criação de valor partilhado. “Se a Companhia ganha, todos ganham.” Num setor tradicionalmente fechado, a complementaridade construtiva tornou-se uma vantagem competitiva.
Liderar sob pressão, decidir com clareza
Em contextos exigentes, a liderança de Mário Campino assenta em disciplina, visão holística e clareza de objetivos. Antecipar riscos, simulá-los e dimensioná-los faz parte do processo, tal como alinhar interesses distintos numa lógica de maximização de resultados.
“Gerir é um exercício de independência e responsabilidade”, afirma. Uma tensão saudável que enriquece a decisão e reforça a integridade da liderança.
O conselho final
A quem ambiciona carreiras sólidas e relevantes, deixa uma mensagem simples e exigente: aprendizagem contínua, visão global e ética. O futuro pertence a quem alia técnica, estratégia e liderança, e tem a coragem de aceitar que o erro faz parte do caminho.
No fundo, criar valor é também aceitar o risco de decidir.