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Carlos Ferraz: Liderar com Pragmatismo num Setor em Transformação

“A minha carreira profissional teve início na área da produção, na indústria têxtil.”
Foi no terreno que Carlos Ferraz construiu as bases da sua forma de pensar e liderar. Desde cedo teve contacto com funções de responsabilidade nas áreas de planeamento, controlo de produção, manutenção e compras, aprendendo com equipas de gestão experientes, mas sobretudo com “as mais de 350 pessoas que faziam parte dessa empresa e que desempenhavam com o maior dos profissionalismos as suas funções”.

Ao longo do seu percurso, procurou sempre novos desafios e diferentes mercados. “Optei por experimentar diferentes desafios em mercados distintos, o que me trouxe diferentes visões que pude aproveitar em cargos futuros.”
Essa diversidade levou-o, no início dos anos 2000, ao setor energético: primeiro no gás natural e GPL, depois na eletricidade e na mobilidade elétrica.

“Tentei sempre tirar o máximo de aprendizagem de todos os cargos por onde passei.”
Para Carlos, os momentos de viragem surgem de forma natural, sustentados por “dedicação, profissionalismo e ética no trabalho”. Acredita que o mercado reconhece esse percurso e que “as oportunidades acabam sempre por surgir”.

A importância do terreno

Ter começado em funções operacionais marcou definitivamente a sua liderança.
“Deu-me uma visão pragmática que hoje é o alicerce de todas as minhas decisões.”

Num setor altamente tecnológico como a mobilidade elétrica, essa experiência permite-lhe distinguir rapidamente “entre um plano teórico apelativo e uma solução verdadeiramente exequível e fiável para o utilizador final”.

Ao definir prioridades estratégicas, fá-lo com consciência dos desafios reais das equipas, estabelecendo metas “ambiciosas, mas realistas”.

Essa base permite-lhe também assumir um papel de ligação: “ser um tradutor entre o mundo da engenharia e o mundo da gestão”, garantindo alinhamento entre especialistas técnicos, investidores e visão estratégica.

Mobilidade elétrica: maturidade e desafios

Carlos considera que Portugal é hoje um dos mercados mais maduros da Europa.
“Passámos de uma fase de nicho para um mercado de massa.”

O maior desafio já não está na vontade dos utilizadores, mas na capacidade da infraestrutura acompanhar o crescimento. Aponta como entraves principais “a celeridade das ligações à rede” e “a lentidão dos processos de licenciamento”.

Destaca ainda a importância da literacia energética:
“A mobilidade elétrica é apenas uma peça de um puzzle maior que inclui produção renovável e armazenamento.”

Portugal tem condições para liderar, mas, para isso, “precisamos de agilizar a burocracia e garantir que a rede elétrica nacional se torna tão dinâmica e flexível quanto a tecnologia que estamos a instalar”.

Inovar num setor regulado

Para Carlos, a regulação não deve ser vista como um bloqueio.
“Não como um travão, mas como a baliza que define a qualidade e a segurança do serviço.”

A diferenciação surge na experiência do utilizador, na antecipação tecnológica e na capacidade de simplificar o que é complexo.
“Inovar num contexto regulado é a arte de transformar obrigações legais em vantagens competitivas.”

A escolha do cliente deve acontecer não por falta de alternativas, mas porque a rede é “mais transparente, fiável e fácil de utilizar”.

Liderança associativa e sentido de responsabilidade

Na liderança da APOCME, o motor é claro:
“Contribuir para um bem comum que ultrapassa os interesses individuais.”

Sente o dever de partilhar experiência num setor em constante mutação e acredita que as associações têm um papel fundamental como interlocutores entre empresas e decisores políticos, assegurando que a regulação reflete “a realidade técnica e operacional do terreno”.

Para Carlos, o setor cresce quando existe confiança, regras claras e uma voz comum.

Direção Geral da Atlante: missão clara

Assumir a Direção Geral da Atlante em Portugal representa “um sentido de missão muito claro”: transformar a empresa no principal player da mobilidade rápida e ultrarrápida no país.

O foco imediato está na expansão da rede e na simplificação da experiência do utilizador.
“O objetivo é que carregar na Atlante seja tão simples como qualquer outro gesto quotidiano.”

A médio prazo, a ambição é escalar e contribuir para o posicionamento da Atlante como o maior operador do Sul da Europa, apostando numa integração tecnológica profunda, com armazenamento de energia e fontes renováveis.

Liderar pessoas em crescimento acelerado

O seu estilo de liderança assenta na proximidade e no pragmatismo.
“O meu papel não é apenas gerir processos ou pessoas, mas dar confiança.”

Para Carlos, uma liderança eficaz remove obstáculos, clarifica o propósito e cria condições para que as equipas trabalhem com autonomia.

Define três valores inegociáveis:

No caso da Atlante, esse objetivo é claro: “tornar a vida de quem conduz um veículo elétrico mais simples”.

Olhar para o futuro

Carlos imagina os próximos anos como a transição definitiva para a utilização massiva da mobilidade elétrica. A evolução deixará de ser medida pelo número de postos e passará a ser avaliada pela qualidade da experiência.

“Carregar um veículo será um ato tão banal e rápido como tomar um café.”

A infraestrutura evoluirá para hubs inteligentes, com integração europeia plena e pagamentos universais. Portugal continuará a ser um laboratório de inovação, demonstrando que a sustentabilidade pode ser “prática, eficiente e acessível”.

Um conselho final

O seu conselho resume-se numa ideia essencial:
“Não perder a curiosidade nem a humildade de aprender com o terreno.”

O conhecimento académico é apenas o início. A relevância profissional constrói-se na adaptação, na execução e na capacidade de unir dois mundos, o técnico e o da gestão.

“No fundo, a relevância profissional hoje não vem do que sabemos, mas da rapidez com que aprendemos e da clareza com que nos adaptamos e executamos.”

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