António Pinto: Tecnologia, Pessoas e a Coragem de Transformar
Há líderes que chegam à tecnologia por via académica. Outros, por acaso. António Pinto chegou lá por curiosidade — e por teimosia.
Aos 12 anos, ainda muito antes de cargos de direção, comités executivos ou programas executivos internacionais, passava horas em frente a um ZX Spectrum, a tentar perceber porque é que alguns jogos simplesmente não funcionavam. Em vez de desistir, procurava as causas. Encontrava soluções. Aprendeu a programar sozinho. Sem saber, estava já a definir duas marcas que o acompanhariam toda a vida: foco em resultados e gosto por resolver problemas complexos.
“Foi aí que percebi que o meu caminho seria trilhado na tecnologia.”
Essa inclinação precoce encontrou terreno fértil quando, aos 21 anos, entrou no mundo profissional, na i2S (hoje Cleva). Os projetos eram exigentes, os contextos complexos e a pressão elevada. A componente técnica nunca foi um obstáculo — mas foi nesse ambiente que António descobriu algo inesperado: o gosto pela liderança, pela gestão de equipas e pela relação com os vários stakeholders dos projetos que liderava.
Mais tarde, surgiu um encontro que marcaria definitivamente o seu percurso: África.
África como escola de liderança
Trabalhar em África não foi apenas uma mudança geográfica. Foi uma mudança de perspetiva.
Depois de projetos bem-sucedidos em Portugal, António foi convidado, em 2005, a liderar iniciativas em Moçambique. Ao longo de uma década, acumulou responsabilidades crescentes, até assumir o desenvolvimento de todo o mercado da África Subsariana. Em 2010, iniciou-se a ligação a Angola, com a criação de uma equipa residente e da subsidiária local da i2S.
Viver em África — e particularmente em Angola — ensinou-lhe que liderar não é apenas gerir tarefas ou cumprir prazos. É compreender contextos. É perceber que, quando chove intensamente, os colaboradores podem não conseguir chegar ao trabalho porque enfrentam dificuldades reais. É aceitar que o papel do líder vai muito além da componente profissional.
“Liderar em África é perceber as necessidades das pessoas, ajudar para além do trabalho e reforçar muito mais o suporte ao seu desenvolvimento.”
Essa vivência moldou profundamente a sua forma de estar: mais humana, mais resiliente, mais consciente do impacto que as organizações têm — ou podem ter — na vida das pessoas.
Pressão como contexto natural
António Pinto não foge da pressão. Pelo contrário: habituou-se a ela cedo.
Recorda a altura da entrada do Euro como um dos momentos mais intensos da sua carreira. Projetos de fusões e aquisições em grandes seguradoras, sistemas financeiros críticos, jornadas de 16 horas e um foco absoluto em resultados.
“A pressão passou a ser o contexto natural de trabalho. Diria até o melhor contexto para desenvolver projetos de sucesso on time, on budget e on quality.”
Essa exposição precoce à complexidade e à urgência ajudou a consolidar uma abordagem muito própria à liderança: visão clara, delegação consciente, exigência quando necessária e presença ativa nos momentos difíceis. Para António, liderar é criar uma visão comum, contagiar a equipa para o desafio e, quando preciso, “arregaçar as mangas” e trabalhar lado a lado.
Do fornecedor ao cliente: a transformação na Fidelidade Angola
Depois de mais de 20 anos como fornecedor de tecnologia, António assumiu um dos maiores desafios da sua carreira: criar e liderar a Direção de Sistemas de Informação da Fidelidade Angola, num contexto de forte crescimento e maturação do mercado segurador.
A mudança de lado trouxe um choque de realidade. Continuava a ser visto como fornecedor de soluções — agora interno — mas sem os recursos necessários para responder à dimensão dos desafios. A resposta passou por parcerias estratégicas, contratação criteriosa e, sobretudo, desenvolvimento de talento local.
Os primeiros anos foram exigentes. A pressão interna era elevada e a velocidade de crescimento das necessidades superava a capacidade de contratação e formação. Mas, gradualmente, as equipas estabilizaram. E foi então que surgiu o verdadeiro salto: a criação de uma equipa dedicada à transformação digital.
Formando jovens sem experiência prévia, António ajudou a construir uma das melhores equipas de Outsystems do mercado angolano. Um feito tanto mais relevante num contexto de escassez de talento e elevada concorrência.
“Aqui, a liderança e a motivação são fundamentais para a retenção.”
Tecnologia é fácil. Mudar mentalidades não.
Quando se fala de digitalização no setor segurador angolano, os exemplos são marcantes: bots de automação, uma fábrica contínua de RPA, o primeiro seguro automóvel 100% online do país.
Mas, para António, o maior desafio nunca foi tecnológico.
“Foi sem dúvida a mentalidade.”
Integrar inovação num grande grupo multinacional, longe do centro de decisão, implica vencer resistências, alinhar interesses e desmontar barreiras invisíveis. Muitas vezes, o esforço para viabilizar uma iniciativa supera largamente o esforço necessário para a desenvolver tecnicamente.
Ainda assim, não hesita: faria tudo de novo. Pelo impacto interno, pelo impacto no mercado e pelo legado deixado.
Confiança, foco e pessoas
O fio condutor da carreira de António Pinto é claro: confiança, foco e capital humano.
No desenvolvimento de negócio em África, aprendeu que a confiança se constrói com tempo, consistência e referência a casos de sucesso reais. Que uma proposta de valor deve ser rigorosamente ajustada às necessidades do cliente — nem mais, nem menos. E que estes princípios continuam válidos, agora novamente do lado do fornecedor.
Quanto às pessoas, a convicção é absoluta: são o ativo mais valioso de qualquer organização.
Critica modelos de microgestão e culturas que só valorizam os colaboradores quando estes ameaçam sair. Prefere compreender cada pessoa, encontrar o enquadramento certo e criar condições para que talentos emerjam. Ao longo do percurso, viu profissionais medianos tornarem-se referências após pequenos — mas decisivos — ajustamentos.
O legado da transformação
Quando reflete sobre o impacto do seu trabalho, António não separa projetos, equipas ou negócios. Para ele, está tudo interligado. Projetos estruturantes só acontecem com equipas excecionais. Transformação digital só é sustentável quando as pessoas crescem com ela.
Hoje, esse mesmo espírito está presente no seu novo projeto, a BEYOND LIMITS, que ambiciona tornar-se um parceiro de referência na transformação digital das seguradoras em África.
O conselho que deixa é pragmático, quase metódico: analisar bem o AS-IS, resistir à tentação de fazer tudo ao mesmo tempo, aplicar a regra de Pareto, desenhar bem o TO-BE, escolher tecnologia adequada — e, acima de tudo, garantir capital humano motivado e parceiros certos.
Porque, no fim, como a sua própria história demonstra, a tecnologia transforma negócios — mas são as pessoas que tornam a transformação possível.