Anabela Marcelino: A Solidez de Quem Construiu Cada Parte do Negócio com as Próprias Mãos
Há líderes que chegam ao topo por um atalho. E há outros que sobem cada degrau com intenção: e que por isso conhecem o edifício melhor do que ninguém.
Anabela Marcelino não escolheu a logística por acaso. Foi a logística que a foi escolhendo: primeiro na British American Tobacco, onde aprendeu a pensar em milhões e a trabalhar com o rigor de uma grande multinacional; depois na Keta Foods, onde entrou por uma porta e foi abrindo todas as outras. Cada departamento que existe hoje na empresa foi iniciado por ela: os primeiros registos, as primeiras funções, os primeiros processos. Décadas depois, é CEO e continua a preferir estar perto da operação a gerir a partir da distância.
“O meu percurso foi muito construído com base na prática, na aprendizagem constante e na capacidade de adaptação. Trabalhar em supply chain ensinou-me que cada detalhe conta e que o sucesso depende muito da consistência, da capacidade de antecipação e da forma como se gerem as pessoas e os processos.”
A lição da BAT: Pensar Grande, Trabalhar com Rigor
Antes de entrar na Keta Foods, Anabela passou pela British American Tobacco: uma multinacional de escala global, onde os números tinham muitos zeros e os KPIs eram reportados mensalmente, sem margem para ambiguidade. Para uma profissional em início de carreira, foi uma escola exigente. E determinante.
“A BAT era uma grande empresa, os números eram grandes, eu só trabalhava com milhões, e isso deu-me uma outra visão de trabalhar, uma visão grande do negócio. Mas aprendi que a forma de trabalhar é idêntica em microempresas: a organização e o controlo são fundamentais para o sucesso.”
Esta capacidade de aplicar o rigor das grandes organizações a realidades mais pequenas tornou-se uma das suas marcas de liderança. Não é preciso ser grande para ser exigente. E não é preciso ser pequeno para ser ágil.
“Nunca vi o crescimento como uma corrida, mas como um processo de aprendizagem contínua.”
Construir Cada Parte do Negócio: o Poder de Conhecer o Terreno
Na Keta Foods, Anabela não ascendeu à liderança por antiguidade. Ascendeu por profundidade. Passou por todas as áreas da empresa e em cada uma, foi ela que criou as bases: os primeiros registos, as primeiras funções, os primeiros processos. Essa travessia completa deu-lhe algo que nenhuma formação consegue substituir: conhecimento real da operação, dos clientes, dos fornecedores e das equipas.
“Acredito muito que liderar também é conhecer a realidade da empresa no terreno. Isso ajuda-nos a tomar decisões mais conscientes e mais próximas das pessoas.”
Operar numa cadeia de abastecimento que liga a Ásia, a Europa e outros mercados trouxe desafios de outra escala: diferenças culturais, fusos horários, atrasos logísticos, questões alfandegárias e, mais recentemente, a instabilidade global. A pandemia foi o teste mais duro e revelou algo que Anabela já sabia: as cadeias frágeis não sobrevivem. Foi preciso aprender rapidamente a ser mais flexível, mais estratégica e a criar alternativas para garantir continuidade de abastecimento.
Qualidade, HACCP e a Cultura da Responsabilidade
Na área alimentar, a margem de erro é zero. Anabela liderou a implementação de sistemas como o HACCP: um processo exigente, que vai muito além de regras escritas e que exige formação contínua e uma cultura interna muito forte de responsabilidade.
“Não basta ter regras escritas. É preciso garantir que toda a equipa compreende a importância dos procedimentos e os aplica diariamente. Tenho muito orgulho na evolução da Keta Foods nessa área: crescemos mantendo sempre um grande foco na qualidade e na confiança dos clientes.”
O mesmo nível de exigência aplica-se à gestão de equipas. A sua liderança é, pelas suas próprias palavras, próxima, humana e prática, mas não confunde proximidade com falta de exigência.
“Sou muito exigente com compromisso, responsabilidade e profissionalismo. Acredito que equipas fortes precisam de confiança, comunicação clara e reconhecimento. E também de autonomia: as pessoas crescem quando sentem que têm espaço para contribuir e tomar decisões.”
O Voluntáriado, a Mentoria e o Impacto que Vai Além da Operação
Anabela Marcelino não fica dentro das fronteiras do cargo. Dedica tempo à mentoria e formação, com especial atenção a profissionais acima dos 50 anos que querem reinventar-se e que, muitas vezes, têm enorme experiência mas falta-lhes confiança ou oportunidade. E esteve no armazém do Banco Alimentar, a fazer paletes para distribuição: dois dias que lhe deram uma perspetiva que nenhum relatório consegue.
“Aquilo que fazemos diariamente vai muito além da operação ou do negócio. Existe uma responsabilidade social muito importante ligada à alimentação, ao desperdício e ao acesso das pessoas aos bens essenciais.”
O olhar sobre o futuro do setor é coerente com esta visão: empresas que pensam além do lucro, cadeias de abastecimento mais resilientes, mais transparentes e mais conscientes do impacto ambiental e social. E uma nota que é só sua:
“É preciso chamar mais mulheres para a área da logística. E vão ver como é surpreendente misturar sexos e gerações dentro de uma equipa.”
“Nunca deixem de aprender. E não tenham medo de começar por funções operacionais. É no terreno que se aprende verdadeiramente como funciona o negócio.”